sábado, 27 de agosto de 2011

Água

TENHO SEDE
SINTO O GOSTO
RELEMBRO A SENSAÇÃO
MAS A BOCA AINDA SECA
GRITA CALADA
SILÊNCIO DE QUEM PRECISA
DESEJA O QUE NÃO TEM
QUERO BEBER NA FONTE

SENTIR A GOTA,
O AR QUE TOCA A PELE
ENQUANTO A ÁGUA ESCORRE
QUERO CHUVA QUE CANTA,
LAVA, MOLHA E CALA.
QUERO ÁGUA!

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Matrimônio, instituição falida

Depois de conversar com muitas pessoas, idades e perfis variados, cheguei a seguinte conclusão:
Casamento é um contrato de interesses, antes com predominância territorial, financeira e de manutenção de status. E hoje serve mesmo para  que?
Escuto tantas vezes a frase, "Se não der certo me separo", e penso, por que embarcam numa história com a previsão de acontecer algo errado?
A mudança nos papéis sociais retirou do homem o poder de mantenedor financeiro e a função de perpetuador dos dogmas morais, as mulheres tornaram-se independentes financeiramente e moralmente, e me surge outra questão, quem faz o que dentro de um casamento? Quais são as funções neste contrato de vida? O termo casamento ainda é funcional para os atuais agrupamentos?
A imagem do pai carregando a moça de branco, atestando sua pureza e a entregando como um pacote nas mãos do homem (esposo) responsável por ela a partir dai não faz mais sentido. Observo um número crescente de lares chefiados por mulheres que dividem seu tempo entre o trabalho, a organização doméstica,  educação dos filhos e a manutenção de uma vida social cada vez mais valorizada por este grupo que tenta incansavelmente obter direitos negados por leis e convenções machistas.
Imagino como alguns casais resitem, compartilham sentimentos e mantém relações saudáveis por décadas, qual seria o segredo?
Tenho muito medo desta palavra...CASAMENTO, para ser bem sincera, raramente assisto o dos outros, nos últimos 10 anos fui em apenas 1, e mesmo assim confesso um certo desconforto.
Queria acreditar, mas vejo tanta coisa...depois de um tempo os beijos são substituídos por olhares frios, e os sonhos substituídos por mentiras e ausências, e nem sou uma pessoa dada ao pessimismo mas vejo tantos casos que é difícil ficar imune.
A sensação de sede é bem singular, transforma a água no líquido mais saboroso, não adianta substitui-la, e quando bebe-se água sem sede, ela volta a ser insípida, inodora e incolor. As pessoas casam com sede, depois ela passa e qual receita para manter esta necessidade do líquido pulsando na garganta?
Acredito no amor, na capacidade de sentir, mas tenho me tornado discrente quanto a capacidade humana de manter sentimentos, cultivar relações duradouras, respeitosas e saudáveis.
Será que descobriremos novas formas de amar,conviver, construir e resignificar a rotina de existir?

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Incerta certeza de quem acredita sentir o que não toca

Estranho como as palavras embelezam, capazes de deixar no ar um perfume doce de flores de plástico, construir castelos de papel e embalar o sonhos dos incautos que deslizam na branca duna de areia errante...
E como sedutoras musas as palavras brincam, sussurram em momentos de amor eterno regados á vinho e carne, suor e saliva, lágrimas e abraços.
Ah doces palavras, armas coloridas enfeitadas de luz, dancem na minha língua quente, adentrem meus ouvidos como flechas, percorram e assim como surgiram desapareçam, deixem só as lembranças.
Queria ser tanto, mas talvez me completasse ser poeta, viver a magia das letras.
Palavras que afetam, irritam, unem, separam, prometem, simplesmente se calam para dizer tanto.
Alguns sons são sólidos, pedras polidas e reluzentes, outros são ecos, repetem-se e escondem-se no vazio.
E para meu deleite, mesmo sem ser poeta me cabe beber na fonte, letras aos goles, palavras em litros, rios...

"Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.
Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
"Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas".
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto"
Hilda Hilst