segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Palavrices

Férias com chuva para alguns é algo ruim...mas em casa quentinha com um pouco de sossego não resisto ao aconchego das letrinhas, umas para ler, outras para escrever.
E nestes dias brinquei um pouquinho, seguem alguns sopros, assovios e grunhidos...

*
Me interessa o que fui, o que sou, o que posso vir a ser.

*
Num canto vazio
um corpo vadio
transborda lamentos.

O corpo cansado
marcado, suado
procura alimento.

O corpo no copo.
*
A poesia é
a lágrima que não sei derramar,
o leite que não pude beber.
A vida que pensei ser minha...
e não cheguei a ter.
*
Desatento

Mesmo sem você ouvir a história aconteceu.
Mesmo sem te interessar a vida prosseguiu.
E sem você perceber, me percebi sozinha.

*
Não queria ser poeta, pois a saudade que ampara a caneta.
Queria ser bicho, sentidos saciados sem argumento.
Só corpo, só carne...
Não queria ser poeta, bastaria ser feliz.

*
Combinam a carne, o gosto, o cheiro.
Desconhecem essência, decência, piedade.
Suor, rangido, atrito, prurido.
Silêncio, plásticos cortados.
Palavras, facas afiadas.
Combinam o sêmen, separam a alma.
*
Palavrices, brincadeiras, brincalavras, palavras.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal e saudade...

Natal é um dia triste pra mim...Lembranças de pessoas que partiram para sempre, e outras pelas distâncias momentâneas da vida...
Nos últimos anos tem sido rotina passar a data meio isolada, é esquisito, enquanto todos compram presente, telefonam, desejam felicidades...
Lembro da primeira árvore que enfeitei, estava prestes a ganhar minha filha e foi um ritual bonito, não pela árvore em si, mas por toda esperança que pendurei nos galhos junto com cada bolinha colorida.
Adorava preparar a ceia, ficava o dia todo no fogão, fazia questão de preparar tudo pessoalmente com capricho, agora prefiro nem ovo fritar.
Com o tempo minha filha foi cescendo e a brincadeira ficou meio mágica, nós duas e as grandes especulações da existência ou não do velhinho de vermelho, e as táticas para esconder o presente no telhado, já que nesta época morava num cômodo pequeno coberto de telha brasilit, quente, abafado e sem nenhuma chance de chaminé, mas tinha tanta magia naquele barraco, hoje a casa é mais confortável mas esses encantos foram substituidos pela correria do cotidiano.
O primeiro Natal que passei separada da minha filha foi de longe o mais triste, ela com oito anos e eu...com toda saudade de um tempo que não voltaria mais. Este será o quarto natal separadas, conto um por um...nos anteriores ainda montava a árvore, mas neste preferi deixar esta história de lado, é difícil para ela também...eu sei. Quando ela fica é diferente, parece que meus olhos enxergam melhor.
Costumo ser debochada, meio fanfarrona com a vida, mas a data da comemoração do nascimento de Jesus me traz uma saudade... da minha bisavó e nossas conversas da madrugada quando acordava para ler a bíblia para ela e orar de memória o salmo 91, depois ouvir seus conselhos que até hoje me acompanham, do seu jeito de fazer angú, das suas mãos velhinhas, enrugadas que trançavam meus cabelos. Saudade da minha vó, do calor do seu abraço nos reencontros durantes as férias, das latas de doce que ela fazia só para mim... sempre que vejo figo em calda me dá um aperto no coração, seus mimos paciência tornaram a minha infância mais feliz. Duas mulheres pequenas no tamanho e grandes no coração, quando sonho com elas fico com uma sensação de voltar no tempo.
Este Natal estou mais esquisita, nem sei explicar, talvez o fato de parar e pensar nas pessoas que entram e saem da vida me faça perceber o quanto tudo é finito.
Mais tarde vou correr para o colo de uma amiga, comer panetonne e tocar em frente, um dia triste no ano já basta.