quarta-feira, 4 de abril de 2018



Deita na grama e floresce
Criança
Não deixa este destino
Alvo
Plantar balas nos frutos
Gente
É tanto tiro pesticida 
Ódio
Réga os olhos da mãe
Preta
A lágrima diferente

quarta-feira, 14 de março de 2018

E quando  possível
sinta
Se necessário
leia
Sempre ame
A vida é um pulsar
Entre encontros
e desencontros
Ela brinca, aflora.
A beleza da lua cheia
mora na inconstância.

sábado, 3 de março de 2018

As vezes sinto saudade
De tudo que não fui
Amanhã essa inverdade
Mesmo assim insisto
Deixei de saber ontem
E outro dia, respiro
Cada leão que matei
Rosnou durante a noite
Esqueci de regar as plantas
Não fosse isso, seria eu
Resisti por nove meses
Absolvida no instante
Contemplo a fumaça
E tudo que o fogo consumiu
Rasguei os guardanapos
Aqueles com poesia
Uma jura dura a existência?
Já parti tantas vezes
Um dia vou para o paraíso
Escreverei algumas cartas
E serei delicada com a vida
Tudo que não foi será fato

quinta-feira, 1 de março de 2018

Quem é você, quando ninguém vê?
Quantas vezes você já perguntou para quem convive se estas pessoas tem momentos felizes?
Quanto vale a sua paz?
Quem segura a sua mão quando um pesadelo te visita?
Quem responde as perguntas que você faz em silêncio, antes de adormecer?
Você ainda lembra da beleza?
E aquele abraço demorado na despedida, ainda faz seu coração disparar?
Você está vivo ou só poupando?
Cadê aquela criança que ria com o inesperado?
Das certezas desta vida é só a partida, o resto é sorte, quem alimenta suas andanças entre a chegada e a despedida? O dinheiro? O que os outros pensam, o medo, a vontade de controle desmedida?
Você ainda lembra que o importante é o amor?
Existe razão em viver sem arriscar sofrer?
Dá para viver sem perguntar?

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Perdi as contas de quantos comprimidos engoli, junto com a angustia.
Reconheço a dor, também física que assina no meu corpo, e conversa com a exaustão dessa existência comprimida.
Vesti roupas coloridas e recorri a maquiagens para compor um bem estar só aparente, combinando com a adequação ao relógio e ao calendário, nesses prazos desrespeitosos que ainda assim me sujeito. Quase um personagem, essa casca que me encaixa nesse convívio não humano, eficiente, adequada ao vencimento com holerite e vínculo empregatício, mergulhada entre emails e ligações não atendidas.
Insisto nessa teimosia de sorrir apesar de tudo, das intervenções, e esperas por horas nos pontos de ônibus, enquanto olho e me espanto com o contingente policial nas ruas, os ruídos das buzinas impacientes, em meio ao cenário de abandono da cidade.
Mais um comprimido para o estômago, outro para a garganta, outro para os hormônios, na fila alguns analgésicos, por graça ou displicência lembro dos efeitos da cachaça, uma pena fazer tanto estrago.
Outro dia vi uma foto, o espanto da criança, a artilharia pesada, e nem com doses dobradas de analgésicos engoli, a garganta permanece inflamada.
Quantas sementes posso germinar para manter viva a esperança? Isso não tem valor no mercado, nem agrega no currículo, muito menos é pontuado nos diálogos com a prestação de serviços, carimbo na minha escrita as facas que riscam a carne por dentro, enquanto torço para a árvore dar frutos, um tanto contraditório, mesmo assim tem mais sentido que a realidade.
A estética dos corpos, e também do vestuário, recurso que também utilizo, faz do íntimo também o circulatório, as pessoas em São Paulo raramente dizem bom dia, mas visivelmente se comunicam nesses nichos regulatórios. Na avenida Europa serei sempre uma estrangeira, sem visto de permanência.
Mais um comprimido para o refluxo, no estômago a cidade também buzina.
Passei semanas sem varrer o quintal, agradecendo por chover e poupar o trabalho de regar as plantas, assinalando no calendário mais um dia "vivido" enquanto guardava as compras do mercado, que provavelmente não terei tempo de sentar para comer.
O intestino humano tem em média de 6 a 8 metros de comprimento, com sua eficácia para produzir merda. Nos rios da cidade nenhum comprimido diminui a azia com o odor de São Paulo.
Todos os dias damos descargas sem perguntar para onde vão as merdas que fazemos, lavamos as mãos em nome da  boa higiene e seguimos engolindo as doses diárias de alimentos e água tratada.
Me espanto com a sanidade das pessoas, inclusive a mental, exceto nos dias que alguém apoia violência contra crianças, nesses acho adequado a ingestão de comprimidos e hábito de tomar a mesma água que pagamos para tratar, até porque as nossas merdas são toleráveis nos rios, nos seis a oito metros de intestino só temporariamente e de forma individual. Esse registro sobre problemas digestivos talvez seja mais um comprimido para o exercício diário de engolir, e digerir  a existência em São Paulo.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

In constância

Eu não sou nada, mas estou sempre de algum jeito, tudo transitório, inclusive a ideia que se cria sobre isso. Constante é a fome, ou acordar cedo e o gosto pelo silêncio. Não se surpreenda se me encontrar na multidão com barulho, tem uma angústia inominável que me move, outro dia amanheceu chovendo e sorriu tudo em mim, nem triste consigo ser com tanta dedicação. Mas isso não é sina, meu peito ás vezes canta e faz da vida rima. Nenhuma lei vai me fazer ser esse concreto, e por isso eu sobrevivo.

Shirlei do Carmo

Prosa no ponto

Me despedi da filha, depois da mãe no portão, olhei o asfalto molhado com a garoa, um engasgo com o pensamento sobre essa inconstância do tempo. Enfim avisto o ponto de ônibus, espera para atravessar a rua, e o ônibus partia, olhei o relógio, ainda dava tempo de torcer pelo próximo.
Foram uns segundos sozinha, e a senhora se aproxima, chegou brava, nem falou bom dia, reclamou do ônibus, do tempo, dos médicos.
A raiz dos cabelos brancos, o rosto marcado, e aquela angustia impaciente, resolvi puxar assunto, falei do tempo, da preocupação com a horta, e logo emendei com um aceno de esperança, às 10 h costuma passar um ônibus.
Ela devolveu:
- "O que mata não é o tempo, são os médicos!"
Logo vi que a situação do ônibus era só uma parte. Perguntei se ela estava atrasada para uma consulta, falei que o ônibus logo viria.
A resposta um câncer no intestino, e o medo traduzido naquela expressão com as marcas do tempo.
Contei das pessoas que conheço e que sobreviveram ao câncer, da importância de fazer o tratamento e acreditar na cura, sorri e avisei sobre o ônibus que enfim se aproximava.
Ela sorriu,  me abraçou,  agradeceu, entramos no ônibus. Agradeço o encontro, a vida manda mensagens, e lembrei que o sereno deixa as folhas com as cores mais bonitas.