quinta-feira, 15 de abril de 2010

Aparências

   Adoro pessoas tortas, aquelas que brigam muito, falam besteira, fazem bobagem e conservam seus defeitos como parte do seu eu melhor.
   Tenho medo de gente muito boazinha, que faz tudo direitinho com a melhor das intenções e sempre são apontadas como ícones de bom comportamento.
   Sabe aquela impressão de que algo não se encaixa, é isso que sinto...
   A natureza humana é dominada por instintos tão fortes que me questiono como alguns conseguem controlar isso, como se a idéia de ser bom superasse o que é natural.
   Questiono tantos valores sem sentido, silêncios que escodem a verdade e frescuras desculpadas pela sensibilidade, acho tudo isso balela pra disfarçar a realidade.
   Pessoas que se envolvem em grandes paixões, gritam quando tropeçam numa pedra, reclamam quando incomodadas, que mudam de idéia e demonstram no olhar  sentimentos de raiva ou desejo me fascinam!
   Detesto máscara, personagens bonzinhos iguais as mocinhas das novelas e mártires que fazem da dor uma escada para a promoção social.
   Gosto dos errantes, pessoas malcriadas, desprovidas de bom senso e com pouca educação, que mostram de cara do que são capazes.
   Aparências são como roupas apertadas, uma hora um fio vai puxar, ou a gordurinha vai escapar...

Senhas

 
"Eu não gosto do bom gosto

Eu não gosto de bom senso

Eu não gosto dos bons modos

Não gosto



Eu aguento até rigores

Eu não tenho pena dos traídos

Eu hospedo infratores e banidos

Eu respeito conveniências

Eu não ligo pra conchavos

Eu suporto aparências

Eu não gosto de maus tratos



Mas o que eu não gosto é do bom gosto

Eu não gosto de bom senso

Eu não gosto dos bons modos

Não gosto



Eu aguento até os modernos

E seus segundos cadernos

Eu aguento até os caretas

E suas verdades perfeitas



O que eu não gosto é do bom gosto

Eu não gosto de bom senso

Eu não gosto dos bons modos

Não gosto



Eu aguento até os estetas

Eu não julgo competência

Eu não ligo pra etiqueta

Eu aplaudo rebeldias

Eu respeito tiranias

E compreendo piedades

Eu não condeno mentiras

Eu não condeno vaidades



O que eu não gosto é do bom gosto

Eu não gosto de bom senso

Não, não gosto dos bons modos

Não gosto



Eu gosto dos que têm fome

Dos que morrem de vontade

Dos que secam de desejo

Dos que ardem



Eu gosto dos que têm fome

E morrem de vontade

Dos que secam de desejo

Dos que ardem"
Adriana Calcanhotto
Composição: Adriana Calcanhoto

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